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Parábola da Pipoca | Rubem Alves

Escolhi esta Parábola do pedagogo brasileiro Rubem Alves (1933-2014), que muito admiro, por falar da importância da transformação e da inovação e por ser tão objetiva na mensagem que transmite:
O que escolhemos ser?
Pipocas ou Piruás*?

*Piruá é o milho de pipoca que não chega a rebentar. Que decide não ser pipoca.

Para se tornar mais genuína, mantive a Parábola tal como Rubem Alves a escreveu, em português do Brasil.

Parábola da Pipoca

“A transformação do milho duro em pipoca macia
é símbolo da grande transformação que devem passar os homens,
para que eles venham a ser o que devem ser.
O milho de pipoca não é aquilo que deve ser.
Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.

O milho de pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer.
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo, continua a ser milho de pipoca,
para sempre.
Assim acontece com a gente.

As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito, a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só elas não percebem. Acham que é o seu jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos.
Dor...
Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente,
perder o emprego, ficar pobre.
Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão,
sofrimentos cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio.
Apagar o fogo.

Sem fogo, o sofrimento diminui.
E com isso a possibilidade da grande transformação.
Pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro, ficando cada vez mais quente,
pensa que a sua hora chegou: vai morrer.

Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar
destino diferente.
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.

Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo
a grande transformação acontece: Bum!
E ela aparece como uma outra coisa,
completamente diferente do que ela mesma nunca havia sonhado.

Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente
se recusam a mudar.
Elas acham que não podem existir coisas mais maravilhosas
do que o jeito delas serem.
A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura.
O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar naquela flor branca e macia.
Não vão dar alegria a ninguém.

Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás
que não servem para nada.
Seu destino é o lixo.

E você, o que é?

Uma pipoca estourada ou um piruá?

Use o calor para se mostrar, use o sufoco para se expandir,
use a discussão para se reconciliar, use a dor para crescer,
o erro para perdoar, o fracasso para reerguer, o tédio para inovar,
o cansaço para modificar, o choro para aliviar, o amor para fazer o bem,
a amizade para dividir, a família para compartilhar, a casa para repousar....

não guarde amores do passado, jogue fora aquelas cartas
daquele que não voltará mais,
não junte extratos bancários velhos, não guarde o bibelô quebrado na gaveta,
jogue fora o lençol rasgado, o batom vencido, aquilo que não usa mais ....

A vida é tão curta, mal se sabe o que vem pela frente,
nunca se sabe na verdade....
Viver o hoje, é mais que uma necessidade, é a prova de que se é inteligente.”

Rubem Alves